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Bloggorduras · Weston A. Price

Manteiga faz mal? Por que ela é melhor

A manteiga virou vilã e a margarina tomou o seu lugar. Entenda por que a Weston A. Price Foundation vê nela um alimento protetor e essencial.

7 de outubro de 2026 · 15 min de leitura · Nu&Cru

Poucas perguntas sobre alimentação se repetem tanto quanto esta: manteiga faz mal? Durante décadas, a resposta oficial foi sim. A manteiga foi acusada de entupir as artérias e de causar câncer, e a margarina "poli-insaturada" ocupou o seu lugar na mesa.

Para a Weston A. Price Foundation, essa história foi contada ao contrário. Este artigo, adaptado de um texto clássico de Sally Fallon e da bioquímica Mary G. Enig, especialista em gorduras, explica por que a manteiga não só não faz mal como protege o corpo contra muitas doenças.


Como a manteiga virou vilã

Segundo as autoras, quando a indústria dos alimentos fabricados e os defensores das grandes fazendas corporativas perceberam que não conseguiriam conter o interesse crescente dos americanos por dieta e nutrição, decidiram se infiltrar nesse movimento, que ameaçava algumas das maiores e mais monopolistas indústrias do país. A partir daí, a informação que chegava ao público ganhou algumas distorções.

A primeira delas foi a afirmação de que as gorduras naturalmente saturadas, de origem animal, seriam a causa principal da epidemia de doenças do coração e de câncer. A manteiga levou a pior parte do ataque e foi acusada de crimes terríveis. Os "ditadores da dieta", como as autoras chamam as autoridades em nutrição, recomendaram trocá-la pela margarina poli-insaturada, e a maioria dos americanos obedeceu. A manteiga quase desapareceu das mesas, evitada como uma delinquente. Uma troca que o Brasil também conhece bem, com o pote de margarina ao lado do pão no café da manhã.


Um alimento sagrado para os povos tradicionais

A má fama surpreenderia muita gente ao redor do mundo, que valoriza a manteiga há milênios pelas suas qualidades de sustentar a vida. Quando o dentista Weston Price estudou as dietas nativas na década de 1930, encontrou a manteiga como alimento básico de muitos povos de saúde excepcional.

  • Em aldeias isoladas da Suíça, os moradores colocavam uma tigela de manteiga no altar da igreja, acendiam um pavio nela e a deixavam queimar o ano inteiro, como sinal da presença divina na manteiga.
  • Grupos árabes também davam grande valor à manteiga, especialmente à de cor amarelo-alaranjada intensa, produzida pelos animais que pastavam capim verde na primavera e no outono.
  • A sabedoria popular americana reconhecia que as crianças criadas com manteiga eram robustas e fortes, enquanto as que tomavam leite desnatado durante o crescimento ficavam pálidas, magras e de rosto "chupado".

Essa imagem aparece até na literatura. No conto Neighbour Rosicky, da escritora Willa Cather, um agente da usina de laticínios tenta convencer a família Rosicky a vender o creme do seu leite, contando quanto os vizinhos, os Fassler, haviam lucrado com o deles no ano anterior. A dona da casa, Mary, responde: "E olhe só para as crianças dos Fassler! Pálidas, de rosto chupado, parecem leite desnatado. Prefiro pôr cor no rosto dos meus filhos do que dinheiro no banco."

Então, a manteiga causa doenças? Pelo contrário, respondem as autoras: a manteiga nos protege contra muitas delas.


Manteiga faz mal ao coração?

As doenças do coração eram raras nos Estados Unidos no início do século XX. Entre 1920 e 1960, sua incidência disparou até se tornarem a principal causa de morte do país. No mesmo período, o consumo de manteiga despencou de cerca de 8 kg para 1,8 kg por pessoa por ano. Não é preciso um doutorado em estatística, observam as autoras, para concluir que a manteiga não é a culpada.

Na verdade, a manteiga contém vários nutrientes que protegem o coração:

  • Vitamina A. É o primeiro deles. A vitamina A é necessária para a saúde da tireoide e das glândulas suprarrenais, que participam do bom funcionamento do coração e do sistema cardiovascular. Bebês de mães com deficiência de vitamina A nascem com anomalias no coração e nos grandes vasos. Segundo as autoras, a manteiga é a melhor fonte de vitamina A da dieta americana, e a de absorção mais fácil.
  • Lecitina. A lecitina da manteiga ajuda o corpo a assimilar e metabolizar corretamente o colesterol e outros componentes das gorduras.
  • Antioxidantes. A manteiga contém vários antioxidantes que protegem contra o tipo de dano causado pelos radicais livres, que enfraquece as artérias. As vitaminas A e E têm forte papel antioxidante, e a manteiga é uma fonte muito rica de selênio: tem mais, grama por grama, que o arenque ou o gérmen de trigo.
  • Colesterol. A manteiga também é uma boa fonte de colesterol. Colesterol, um antioxidante? Exatamente. As autoras explicam que o colesterol é um antioxidante potente, que o corpo lança no sangue quando recebe radicais livres demais, em geral vindos das gorduras danificadas e rançosas da margarina e dos óleos vegetais altamente processados. A fundação aprofunda o tema em Cholesterol: Friend or Foe?.

Um levantamento do Medical Research Council, o conselho britânico de pesquisa médica, mostrou que os homens que comiam manteiga tinham metade do risco de desenvolver doença cardíaca dos que usavam margarina.


Manteiga e câncer

Nos anos 1940, pesquisas indicaram que comer mais gordura aumentava o risco de câncer. O abandono da manteiga se acelerou, e a margarina, até então comida de pobre, passou a ser aceita pelas famílias abastadas.

Havia, porém, um pequeno problema na forma como essas pesquisas foram apresentadas ao público. A imprensa deixou de destacar que as gorduras "saturadas" usadas nos experimentos não eram gorduras naturalmente saturadas, mas gorduras parcialmente hidrogenadas, endurecidas artificialmente, do tipo encontrado na margarina e não na manteiga. Os pesquisadores afirmavam (e talvez acreditassem nisso) que não havia diferença entre as gorduras naturalmente saturadas da manteiga e as gorduras endurecidas da margarina e da gordura vegetal. Assim, a manteiga foi pintada com a mesma tinta das gorduras fabricadas, e os vilões passaram por heróis.

Na verdade, dizem as autoras, muitas das gorduras saturadas da manteiga têm fortes propriedades anticâncer. A manteiga é rica em ácidos graxos de cadeia curta e média, que têm fortes efeitos antitumorais. Ela também contém ácido linoleico conjugado, o CLA, que segundo a fundação oferece excelente proteção contra o câncer.

A vitamina A e os antioxidantes da manteiga (vitamina E, selênio e colesterol) protegem contra o câncer tanto quanto contra as doenças do coração.


Manteiga e imunidade

A vitamina A da manteiga é essencial para um sistema imunológico saudável, e os ácidos graxos de cadeia curta e média também fortalecem as defesas do corpo. Já as gorduras hidrogenadas e o excesso de ácidos graxos de cadeia longa, presentes nos óleos poli-insaturados e em muitos substitutos da manteiga, têm efeito prejudicial sobre o sistema imunológico, segundo as autoras.


Manteiga e artrite: o fator Wulzen

O fator Wulzen, ou fator "antirrigidez", é um nutriente exclusivo da manteiga. A pesquisadora Rosalind Wulzen descobriu que ele protege contra a calcificação das articulações, a artrite degenerativa ou artrose, e também contra o endurecimento das artérias, a catarata e a calcificação da glândula pineal.

Infelizmente, essa substância vital é destruída pela pasteurização. Bezerros alimentados com leite pasteurizado ou desnatado desenvolvem rigidez nas articulações e não se desenvolvem bem. Os sintomas regridem quando se acrescenta gordura de leite cru à dieta. Os efeitos do processamento do leite são o tema de outro artigo da Nu&Cru, sobre o leite UHT.


Manteiga e osteoporose

As vitaminas A e D da manteiga são essenciais para a boa absorção do cálcio e, portanto, para ossos e dentes fortes. Para as autoras, a epidemia de osteoporose nos países ocidentais que bebem leite pode ter relação com a preferência pelo leite desnatado, escolhido por quem acredita que ele faz bem. A manteiga também tem efeito anticariogênico, ou seja, protege contra a cárie.


Manteiga e tireoide

A manteiga é uma boa fonte de iodo, em forma muito bem absorvida. Seu consumo previne o bócio nas regiões montanhosas, onde não há frutos do mar. Além disso, a vitamina A da manteiga é essencial para o bom funcionamento da tireoide.


Manteiga e saúde intestinal

A gordura do leite contém glicoesfingolipídios, uma categoria especial de gorduras que protege contra infecções gastrointestinais, sobretudo nos muito jovens e nos idosos. Por isso, segundo o estudo citado pelas autoras, crianças que tomam leite desnatado têm diarreia de três a cinco vezes mais do que as que tomam leite integral.

O colesterol da gordura do leite favorece a saúde da parede intestinal e protege contra o câncer de cólon. Os ácidos graxos de cadeia curta e média protegem contra patógenos e têm forte ação antifúngica. Por isso, defendem as autoras, a manteiga tem papel importante no tratamento do crescimento excessivo de cândida.


Manteiga engorda?

A ideia de que a manteiga engorda é, para as autoras, um triste equívoco. Os ácidos graxos de cadeia curta e média da manteiga não são armazenados no tecido adiposo: o corpo os usa como fonte rápida de energia. A gordura corporal humana é formada principalmente por ácidos graxos de cadeia mais longa, que vêm do azeite e dos óleos poli-insaturados, e também dos carboidratos refinados.

Como é rica em nutrientes, a manteiga traz uma sensação de satisfação. As autoras deixam uma pergunta: será que a margarina e os outros substitutos da manteiga provocam vontades e compulsões justamente porque esses produtos, tão fabricados, não dão ao corpo aquilo de que ele precisa? A relação entre comida de verdade e peso é o tema do artigo Alimentação ancestral: o fim das dietas.


Manteiga no crescimento das crianças

Muitos fatores da manteiga garantem o crescimento ideal das crianças, e o principal deles é a vitamina A. Segundo as autoras:

  • quem recebe pouca vitamina A durante a gestação tende a ter rosto e estrutura óssea estreitos, palato pequeno e dentes apinhados;
  • a privação extrema de vitamina A provoca cegueira, problemas no esqueleto e outros defeitos congênitos;
  • quem recebe vitamina A em quantidade ideal desde a concepção tem rosto largo e bonito, dentes fortes e alinhados e excelente estrutura óssea;
  • a vitamina A também tem papel importante no desenvolvimento das características sexuais.

Bezerros alimentados com substitutos da manteiga adoecem e morrem antes de chegar à idade adulta. A fundação desenvolve o tema da vitamina A na gestação nos seus textos sobre a alimentação antes e durante a gravidez.

O fator X de Weston Price

O fator X, descoberto por Weston Price e hoje considerado a vitamina K2, também é essencial para o crescimento ideal. Segundo as autoras, ele só está presente na gordura do leite de vacas que pastam capim verde. A história dessa descoberta está no artigo On the Trail of the Elusive X-Factor, da fundação.

O colesterol da gordura do leite tem papel importante no desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso. O leite materno é rico em colesterol, e mais de 50% das suas calorias vêm da gordura. Dietas pobres em gordura já foram associadas ao baixo ganho de peso e de crescimento nas crianças, e mesmo assim são recomendadas com frequência para os pequenos. As crianças precisam dos muitos fatores presentes na manteiga e nas outras gorduras animais para se desenvolver bem. Para a alimentação dos pequenos, veja o Guia da Introdução Alimentar Ancestral e o artigo sobre os primeiros alimentos do bebê.


Margarina, cremes vegetais e quem lucra com eles

Para as autoras, já não é segredo que a margarina e as gorduras hidrogenadas dos biscoitos doces e salgados industrializados são as principais culpadas pela atual epidemia de câncer e de doenças do coração. Mesmo assim, os principais nomes da nutrição continuam a falar mal da manteiga e a recomendar, no lugar dela, os novos cremes vegetais de pote.

Esses cremes podem até não conter gordura hidrogenada, mas são feitos de óleos vegetais altamente processados e rançosos, isolado de proteína de soja e uma série de aditivos. Um livro de receitas americano de sucesso, o Butter Busters ("caça-manteiga"), promovia um substituto em pó feito de maltodextrina, um carboidrato extraído do milho, ao lado de dezenas de outros produtos industriais ditos "light".

Quem se beneficia da campanha contra a manteiga? A lista é longa, dizem as autoras, e inclui a medicina convencional, os hospitais, a indústria farmacêutica e os processadores de alimentos. Mas o grande beneficiado é a fazenda corporativa e os cartéis que compram os seus produtos, principalmente algodão, milho e soja, as três principais lavouras dos Estados Unidos, em geral cultivadas em monoculturas em grandes propriedades, com uso intenso de adubos químicos e agrotóxicos.

As três servem de matéria-prima tanto para a margarina quanto para os novos cremes vegetais. Para que esses produtos sejam aceitos pelo consumidor mais exigente, a indústria e o agronegócio cuidam de promovê-los como alimentos saudáveis. "Somos tolos se acreditarmos neles", escrevem as autoras. Quem quer fugir desses óleos também fora de casa pode consultar o mapa De olho no óleo, com os restaurantes que cozinham com gordura de verdade.


Manteiga e a agricultura familiar

Um país que consome gordura do leite, por outro lado, é um país que sustenta a agricultura familiar. Se os consumidores estivessem dispostos a pagar um bom preço por manteiga e creme de alta qualidade, de vacas criadas a pasto, todo pequeno e médio produtor poderia lucrar com algumas vacas Jersey ou Guernsey, raças conhecidas pelo leite rico em gordura.

Para oferecer pasto verde às vacas, o produtor naturalmente precisaria fazer rotação de culturas, reservando diferentes partes da propriedade para o pastejo. Com isso, a terra ganharia um período de pousio, sem falar no esterco de excelente qualidade. Campos manejados dessa forma produzem legumes e grãos de altíssima qualidade nas safras seguintes, sem adubos nitrogenados e com o mínimo de agrotóxicos.

E as galinhas soltas no terreiro, ciscando os insetos que se juntam debaixo do esterco das vacas, botariam ovos de qualidade nutricional excepcional, cheios de vitamina A e de ácidos graxos benéficos. É a mesma lógica das galinhas no quintal.

Para devolver aos Estados Unidos a prosperidade dos agricultores, na melhor tradição de Thomas Jefferson, as autoras recomendam comprar manteiga, creme de leite, leite integral e iogurte integral orgânicos, e ovos de galinhas criadas soltas. Esses alimentos dão um lucro bom e justo ao pequeno produtor, sem concentrar poder nas mãos dos conglomerados. No Brasil, o mapa de produtores da Nu&Cru ajuda a encontrar quem vende laticínios e ovos direto da fazenda. Com um bom creme, dá para fazer em casa o creme azedo e, com leite integral, o iogurte natural.


Melhor e essencial

Os povos que não usam manteiga obtêm os mesmos nutrientes de alimentos como insetos, vísceras, ovas de peixe e a gordura de animais marinhos, itens que a maioria de nós acha repulsivos. Por isso, concluem as autoras, para quem não come insetos nem gordura de baleia, a manteiga não é apenas melhor: é essencial.

Para levar essa lição à mesa todos os dias, comece pela nossa manteiga temperada, que vai bem com carnes, legumes e pão. A fundação também resume os argumentos deste artigo em um folheto sobre a manteiga (em inglês).


Leia também

Na Nu&Cru

Na Weston A. Price Foundation (em inglês)


Referências

  1. Price, Weston A. Nutrition and Physical Degeneration. La Mesa: Price Pottenger Nutrition Foundation, 1945.
  2. Cather, Willa. Neighbour Rosicky. Conto citado como exemplo da tradição popular americana sobre a gordura do leite.
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  8. Cohen, op. cit.
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  17. Jennings, op. cit.
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  22. Enig, op. cit.
  23. "Diet Roulette". The New York Times, 20 de maio de 1994.

Este artigo é uma adaptação de "Why Butter Is Better", de Sally Fallon e Mary G. Enig, publicado pela Weston A. Price Foundation em 2000. Leia o original em inglês.

As informações têm caráter educativo e não substituem avaliação individual de profissional de saúde habilitado.