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Leite UHT faz mal? A verdade da caixinha
O leite UHT é aquecido a quase 150 °C e dura meses fora da geladeira. Entenda o que esse processo faz com as proteínas, as enzimas e os nutrientes.

O leite UHT, aquecido a temperaturas altíssimas para durar meses na prateleira, conquistou boa parte do mundo. No Brasil, ele é o leite longa vida, o famoso leite de caixinha, o mais vendido nos supermercados. Mas o que esse tratamento faz com o leite? Para a Weston A. Price Foundation, a resposta está no título que a revista da fundação deu ao artigo adaptado aqui: "Leite ultrapasteurizado, uma ideia ultrarruim".
Do "Got Milk?" ao leite orgânico
No começo dos anos 1990, a famosa campanha publicitária Got Milk?, que virou fenômeno da cultura pop nos Estados Unidos, tentou reverter a queda no consumo de leite usando celebridades para dar ao produto um certo charme. As vendas do leite convencional continuaram caindo, porque cada vez mais consumidores, quase sempre mães, perceberam que o produto da indústria não era o alimento saudável prometido pelos outdoors.
As mães mais atentas levaram a família direto para o leite cru, e continuam fazendo isso até hoje. Muitas outras migraram para o leite orgânico pasteurizado. Em 2007, a agência Reuters noticiava que a demanda por leite orgânico crescia 25% ao ano.
O que o orgânico tem de bom
À primeira vista, o leite orgânico é atraente. Os argumentos de venda incluem mais vitaminas (porque as vacas pastam), tratamento mais humano dos animais e ausência dos pesticidas, antibióticos e do hormônio de crescimento bovino que continuam presentes no leite convencional.
Um estudo de 2019 deu ainda mais fôlego ao orgânico: pesquisadores encontraram níveis detectáveis de vários pesticidas em 26% a 60% das amostras de leite convencional compradas no varejo dos Estados Unidos, "mas em nenhuma das amostras orgânicas" (Public Health Nutrition, 2019). No mesmo estudo, três em cada cinco amostras convencionais (e nenhuma orgânica) tinham resíduos de antibióticos, algumas acima dos limites da FDA, a agência americana que regula alimentos e remédios. E, por causa do hormônio de crescimento sintético usado na produção convencional, os níveis medianos desse hormônio eram 20 vezes maiores no leite convencional. A única exceção foram três "pesticidas antigos", que persistem por muito tempo no solo e apareceram em quase todas as amostras, convencionais e orgânicas.
Por que o leite orgânico também é UHT
O estudo de 2019 parecia apontar o caminho do leite orgânico, mas o orgânico pasteurizado merece um olhar mais atento. Além de os grandes produtores costumarem operar no modelo de fazenda industrial, que contradiz a imagem simpática do selo orgânico, a maioria compartilha outra prática maligna: 80% do leite orgânico vendido nos supermercados americanos é UHT (ultra-high temperature, ou ultra-alta temperatura).
Às vezes chamado só de leite ultrapasteurizado, o UHT é aquecido a uma temperatura entre 138 °C e 149 °C, por dois a seis segundos, muito acima do ponto de fervura do leite, de 100 °C. Para comparar os métodos de pasteurização:
- Pasteurização lenta (em tanque ou por lotes): o método original aquece o leite a 63 °C por 30 minutos.
- Pasteurização rápida (HTST, alta temperatura e tempo curto): aquece o leite a 72 °C por pelo menos 15 segundos.
- UHT: de 138 °C a 149 °C, por dois a seis segundos.
A guerra contra todas as bactérias
Os especialistas em laticínios justificam todas as formas de tratamento térmico no contexto de uma "guerra de cem anos travada indiscriminadamente contra todas as bactérias", alimentada por circunstâncias históricas que já não existem, como lembra o texto 15 Things That Milk Pasteurization Kills, da campanha da fundação pelo leite de verdade. Como observou uma blogueira, quando o público é doutrinado a temer o leite cru e abraçar a pasteurização, tende a pensar: "se pasteurizado é bom, ultrapasteurizado deve ser ainda melhor, certo?". Mas, no caso do UHT, os próprios cientistas de laticínios admitem que uma consideração comercial, o prazo de validade, é um dos grandes motivos do seu avanço.
Quando a indústria usa a pasteurização lenta ou a rápida (que já destroem enzimas valiosas e desnaturam algumas proteínas), o produto final dura cerca de uma semana. A abordagem kamikaze do UHT vai muito além: mata ou desnatura indiscriminadamente nutrientes, enzimas e proteínas, mas, e esse é o principal atrativo para os produtores, estende a validade do produto fechado e fora da geladeira para impressionantes seis a nove meses.
O discurso da Tetra Pak
A multinacional Tetra Pak, gigante das embalagens e também grande fornecedora de equipamentos de UHT, explica com entusiasmo que, como o leite UHT dispensa refrigeração e é fácil de armazenar e transportar, não surpreende que muitos produtores o vejam como ótima escolha para o leite orgânico. Com a mesma lógica tortuosa, a empresa tem a ousadia de descrever o UHT como "leite fresco sem conservantes" e diz que a maior parte do leite orgânico passa pelo processo "porque as fazendas orgânicas não estão em todas as regiões do país" e o produto precisa viajar mais para chegar a muitos mercados.
O que a Tetra Pak não conta em seus anúncios é que o UHT favorece o grande agronegócio. A Milky Day, fornecedora de equipamentos cujos principais clientes são pequenas fazendas leiteiras e pessoas que têm algumas vacas, ovelhas ou cabras, explica que o leite ultrapasteurizado não é uma opção viável para a maioria dos pequenos produtores, por causa do alto custo dos equipamentos. E quando os grandes laticínios têm recursos não só para comprar o equipamento de UHT, mas também para transportar seu produto de validade quase infinita por longas distâncias, ganham mais uma ferramenta para tirar os pequenos do mercado e desligar o leite das comunidades locais. É o contrário do que propõe o mapa de produtores da Nu&Cru, que conecta quem compra a quem tira o leite, inclusive produtores de leite cru e queijarias.
O leite de caixinha conquistou o mundo
Fora dos Estados Unidos, o movimento é o mesmo, e o UHT, sem nem o verniz do selo orgânico, "mais ou menos conquistou o mercado de leite em muitos lugares do mundo". O consumo cresce na Ásia-Pacífico, na Austrália, no Leste Europeu, na América Latina, no Oriente Médio e na África. No mundo, cerca de um terço (34%) do leite líquido consumido é UHT, e em algumas regiões, como a África do Sul, o UHT já tem mais da metade (53%) do mercado.
Um profissional de marketing do setor, que descreve a tecnologia como "uma inovação enviada por Deus", comemora que, onde a energia elétrica é instável ou as casas não têm geladeira, as pessoas são "incentivadas" a migrar para o UHT. O toque final, segundo ele, é que a tecnologia permite que o leite, um produto altamente perecível, seja consumido em lugares tão remotos quanto a aldeia de Kalukwakerith, no extremo norte do Quênia.
A resistência dos americanos
Quando o UHT chegou aos Estados Unidos, no começo dos anos 1990, os produtores descobriram que o grande argumento de venda no exterior, a capacidade de ficar fechado em temperatura ambiente sem refrigeração, despertava a desconfiança dos americanos, que preferem leite gelado. Por isso, como conta o blog Food Renegade, "os produtores de leite usaram a criatividade" e passaram a vender o leite de longa duração em embalagens normais, na seção refrigerada, contornando a resistência do consumidor.
A crença americana de que leite é coisa de geladeira rendeu críticas na imprensa. A revista Reader's Digest afirmou, com desdém, que os americanos rejeitaram o UHT por causa de sua "obsessão por refrigeração". Num artigo para turistas gastronômicos que exalta o UHT como uma "maravilha moderna", outra jornalista ironizou o susto dos americanos diante das fileiras de caixas de leite fora da geladeira em supermercados de países como a França: teriam sido esquecidas ali por engano? Algo deu terrivelmente errado? Não se preocupe, escreveu ela, é ali mesmo que elas devem ficar. Para o brasileiro, a cena não tem nada de estranha: aqui, as caixinhas de leite longa vida também ficam empilhadas nas prateleiras, em temperatura ambiente.
Leite de caixinha é leite "morto"?
Para os consumidores que olham o UHT mais de perto, o "susto" é de fato uma reação comum, mas não pelos motivos que a jornalista imaginava. Uma blogueira que investigou as opções de leite pasteurizado conta como percebeu que nem o convencional nem o orgânico UHT eram saudáveis: ou ela enchia os copos dos filhos de hormônios de crescimento sintéticos e antibióticos, ou servia um "leite" tão morto que as aspas se justificavam.
Outros observadores, consumidores e pesquisadores concordam com a descrição do UHT como leite "morto". Com palavras um pouco mais diplomáticas, mas ainda assim expressivas, uma reportagem da BBC de 2017 tratou os efeitos do "calor breve e intenso" do UHT como "qualidades estranhas":
- as proteínas do soro se desenrolam e viram "fios moles";
- as enzimas se desmancham, e o leite UHT não serve para fermentação, como na fabricação de queijo;
- surge um gosto de queimado, resultado da reação química entre as proteínas e os açúcares do leite, a reação de Maillard;
- compostos de enxofre criados no processo dão ao leite um "cheiro de ovo" ou "gosto de cozido" (Critical Reviews in Food Science and Nutrition, 2012).
Não por acaso, as receitas da Nu&Cru de coalhada natural, iogurte natural e kefir de leite pedem, de preferência, leite cru.
Plasmina: a enzima que não morre
Na linguagem dos cientistas de laticínios, os "efeitos indesejáveis" produzidos pelo processamento e pelo longo armazenamento incluem escurecimento, instabilidade da emulsão, formação de sabores estranhos e perda de nutrientes. Parte desses efeitos acontece porque, embora o UHT mate as enzimas "de trabalho" do leite, pelo menos uma, a plasmina, resiste ao calor e não se desfaz. A plasmina provoca a quebra das proteínas, a proteólise (Journal of Dairy Science, 2010).
Segundo a BBC, a plasmina sai "fatiando várias proteínas", soltando-as do que estavam fazendo e permitindo que se grudem umas às outras. No leite UHT, isso pode criar aglomerados gelatinosos, num processo irreversível chamado gelificação por envelhecimento. A viscosidade aumenta, e o leite ultrapasteurizado pode ficar difícil de despejar.
Gosto de repolho, depois amargo
Em 2004, Linda Joyce Forristal reuniu parte das pesquisas sobre o leite UHT para a fundação, no artigo Ultra-Pasteurized Milk, e comentou a linha do tempo de algumas dessas "qualidades estranhas", já bem documentadas na época. Ela observou que os compostos de enxofre formados no aquecimento dão ao leite um sabor forte de repolho, mais perceptível logo depois do processo. Esses compostos se dissipam, mas, cerca de um mês depois, o leite UHT começa a se deteriorar e passa a ser descrito pela indústria como "velho", ficando com o tempo não só gelatinoso, mas amargo.
A conclusão irônica de Forristal: o momento ideal para tomar leite UHT com algum prazer, se é que isso é possível, se limita ao intervalo entre o sumiço do gosto de repolho e a chegada do sabor de velho, do amargor e da textura gelatinosa. A Milky Day, por sua vez, sugere que praticamente qualquer outro tipo de leite, cru ou mesmo pasteurizado por outros métodos, "será mais gostoso do que o UHT".
O estudo brasileiro e os estabilizantes
Em 2017, cientistas brasileiros analisaram amostras de leite UHT integral de seis grandes empresas de laticínios que vendem no Brasil e em outros países da América do Sul (Food Science and Technology, 2017). Eles se preocuparam ao descobrir que todas as amostras tinham "potencial significativo de causar toxicidade em nível celular", além de efeitos genotóxicos e mutagênicos.
Os pesquisadores também levantaram a possibilidade de que os fabricantes estivessem acrescentando "microingredientes" ao leite UHT para manter as propriedades sensoriais agradáveis, e registraram a "grande preocupação de profissionais de saúde e de agências de vigilância sanitária" com a adição de compostos químicos não permitidos por lei. No artigo de 2004, Forristal já se perguntava se a indústria não estaria acrescentando às escondidas "aromatizantes ou outros produtos químicos" para disfarçar o gosto ruim. Curiosamente, em 2018, a Nestlé admitiu que vinha adicionando "estabilizantes" ao leite UHT vendido no Brasil (embora a longa validade seja justamente a grande virtude do produto) e se comprometeu a retirá-los, prometendo voltar a ter "apenas ingredientes simples e reconhecíveis nos rótulos".
Leite UHT é difícil de digerir?
O gosto estranho e a textura gelatinosa estão longe de ser os únicos problemas do leite UHT. Além de matar as bactérias "boas", que ajudam a manter as "más" sob controle, a ultrapasteurização desnatura a caseína e as proteínas do soro, as principais proteínas do leite. O calor extra rompe algumas das ligações que dão estrutura à proteína e faz com que ela se alongue, o que altera seu comportamento no corpo e torna o leite extremamente difícil de digerir.
O blog Food Renegade resume bem a questão no texto Just Say No to UHT Milk. Os componentes do leite cru são extremamente frágeis. As proteínas do leite são complexas e tridimensionais, feitas para ser quebradas na digestão por enzimas especiais, que se encaixam nelas como peças de um quebra-cabeça. Quando o leite é aquecido rapidamente, as proteínas se desnaturam e ficam achatadas, e as enzimas não conseguem fazer o seu trabalho. Ou seja, a proteína do leite fica muito mais difícil de digerir. Não admira, diz o blog, que cada vez mais gente se considere intolerante à caseína: a pasteurização e o UHT matam as enzimas do leite necessárias para digerir a caseína e ainda alteram a caseína a ponto de torná-la indigerível.
Alergia ao leite e esofagite
Em 2021, pesquisadores austríacos admitiram que "pouco se sabe sobre o efeito do processamento UHT no contexto da alergia", mas concordaram que o processamento térmico pode alterar a estrutura tridimensional das proteínas de formas relevantes para o potencial alergênico (Foods, 2021). A alergia ao leite de vaca é a alergia mais comum entre os bebês americanos (World Allergy Organization Journal, 2022).
Um relato de 2020 descreveu um caso de esofagite eosinofílica, uma condição alérgica do esôfago, num menino de nove anos com alergias e asma prévias que trocou o leite "pasteurizado comum" pelo ultrapasteurizado (Cureus, 2020). A doença se manifestou em episódios de dor abdominal, náusea intermitente, vômitos ocasionais e tosse depois das refeições. Os autores observam que a adoção comercial em massa dos laticínios ultrapasteurizados e UHT nos Estados Unidos coincide, grosso modo, com o período em que a esofagite eosinofílica surgiu como problema médico, e perguntam se os novos métodos de processamento do leite não estariam na origem da doença, ao alterar a estrutura das proteínas e seu potencial alergênico.
E os nutrientes?
A afirmação da Tetra Pak de que a diferença nutricional entre o leite ultrapasteurizado e os "outros" leites é "mínima, se não totalmente desprezível" é difícil de engolir. Até a simples fervura reduz significativamente o valor nutricional do leite, inclusive as vitaminas do complexo B, em até 36%, segundo o site de saúde WebMD. Já em 1982, pesquisadores haviam descoberto que a desnaturação de proteínas causada pela pasteurização comum reduzia a absorção de folato, uma vitamina B (Journal of Nutrition, 1982). O WebMD alivia a pasteurização rápida, dizendo que o leite pasteurizado costuma ser enriquecido com vitaminas e minerais para repor os poucos que se perdem no aquecimento, mas nem discute o impacto das temperaturas da ultrapasteurização, muito acima das da pasteurização rápida e da fervura.
Num estudo publicado em 2021, pesquisadores da França e da Nova Zelândia lamentaram a escassez de estudos que medem o metabolismo de proteínas e gorduras em seres humanos depois do consumo de leite tratado pelo calor (Frontiers in Nutrition, 2021). Ainda assim, os poucos dados disponíveis sugerem uma associação entre o consumo de leite tratado pelo calor e a menor absorção de nutrientes, que por sua vez se associa a distúrbios gastrointestinais e à doença inflamatória intestinal.
Esporos dormentes e enzimas que resistem ao calor
Sally Fallon Morell, presidente da fundação, já contou como os surtos de listeriose causados por leite pasteurizado em meados dos anos 1980 (New England Journal of Medicine, 1985) mostraram que as técnicas de pasteurização da época não cumpriam seu objetivo declarado de evitar esses surtos. Em 1987, cientistas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) relataram que uma única usina de laticínios, que produzia duas marcas de leite pasteurizado com 2% de gordura, foi responsável por quase 200 mil casos de salmonelose resistente a antibióticos em Illinois, e concluíram que a bactéria havia "contaminado repetidamente o leite depois da pasteurização" (JAMA, 1987). Morell observa que a lição infeliz que a indústria tirou desses episódios não foi trabalhar com mais limpeza, mas com mais calor: o UHT.
Os esporos que sobrevivem
Nem a ultrapasteurização resolve, como mostram as pesquisas sobre os endósporos, estruturas resistentes que permitem a certas bactérias, como as robustas espécies do gênero Bacillus (que não devem ser confundidas com os Lactobacillus), ficar dormentes por longos períodos, "até séculos", segundo a Wikipédia, e voltar à atividade em condições favoráveis.
Diz-se que a ultrapasteurização mata "a maioria" dos esporos bacterianos, mas os especialistas em laticínios reconhecem que alguns dos esporos restantes podem se ativar e causar problemas, sobretudo quando o leite é guardado em lugares mais quentes. Um estudo tunisiano que acompanhou a ocorrência de bactérias formadoras de esporos ao longo da linha de produção do leite UHT no inverno, na primavera e no verão constatou que elas tinham "alta resistência ao calor", sobretudo na primavera e no verão (Journal of Dairy Science, 2017). E, segundo um estudo de 2022 sobre o Bacillus cereus, o tratamento térmico do leite pode, na verdade, "agir como ativador da germinação dos esporos" (Foods, 2022).
Enzimas que estragam o leite
Estudos mostram também que as bactérias psicrotróficas, capazes de crescer abaixo de 7 °C, podem se multiplicar e contribuir para estragar o leite UHT, porque produzem "enzimas de deterioração" que resistem ao calor, da pasteurização ao nível do UHT. Em 2017, pesquisadores europeus e brasileiros observaram que a atividade residual dessas enzimas depois do tratamento térmico pode causar "problemas tecnológicos", como sedimentação, gelificação e ranço durante a vida de prateleira do leite e dos laticínios, além dos defeitos de sabor já descritos (Frontiers in Microbiology, 2017).
Os mesmos pesquisadores reconhecem que reduzir a atividade ou a secreção dessas enzimas é "um desafio científico" e que reduzi-la com calor "parece ser muito difícil". E concluem que o problema "tem importância crescente por causa do grande comércio mundial de leite líquido e de leite em pó".
O futuro do leite: UHT ou leite de verdade?
Os pesquisadores que reconhecem o alto valor nutritivo do leite cru se maravilham com sua "ampla biodiversidade microbiana, com mais de 150 espécies identificadas", e lembram que essa diversidade está na base da riqueza dos laticínios tradicionais de cada região do mundo. Eles observam ainda que "uma grande parte da microbiota do leite ainda é inexplorada": quase um em cada cinco micro-organismos isolados do leite cru (18%) pertence a "espécies até então desconhecidas". É essa vida que dá origem a queijos de leite cru como o brie e o parmesão.
Em vez de admirar a impressionante complexidade do "alimento perfeito da natureza", a indústria convencional de laticínios parece decidida a continuar passando o trator por cima dela. A mais nova aposta de marketing da Tetra Pak é a tecnologia OneStep, "revolucionária", que combina separação, padronização, mistura e tratamento térmico numa única etapa, a partir de leite cru ou de leite em pó. Segundo a empresa, o OneStep encurta o processamento de alguns dias para "apenas algumas horas".
Leite cru feito para ser bebido cru
A Weston A. Price Foundation e outras entidades, como o Raw Milk Institute, há muito tempo apontam a diferença entre dois tipos de leite cru. De um lado, o leite cru de alto risco "destinado à pasteurização", misturado de vários confinamentos leiteiros e "produzido em condições em que a saúde animal está comprometida", com "uma taxa correspondentemente alta de patógenos". De outro, o leite cru de baixo risco que tantos americanos hoje conseguem consumir, "produzido com cuidado e intenção para o consumo humano direto", como explica a carta do Raw Milk Institute aos profissionais de saúde.
Para a autora, quem se der ao trabalho de conhecer os fatos básicos sobre as muitas vantagens do leite cru, para consumidores e produtores, provavelmente vai enxergar as falsas promessas da tecnologia UHT e manter os laticínios UHT, orgânicos ou não, longe da mesa da família. Com leite de verdade, a cozinha ganha de volta receitas como o creme azedo, o sorvete cru e a vitamina de banana.
Quadro: as "possibilidades infinitas" do UHT
Em outubro de 2023, uma matéria promocional publicada no site Dairy Reporter, com conteúdo pago e fornecido pela Tetra Pak, celebrou a "evolução" do leite UHT e as possibilidades infinitas de criar clientes fiéis. Segundo o texto, o leite UHT é "naturalmente nutritivo", mas "pode ser facilmente transformado para atender a desejos específicos do consumidor por benefícios funcionais". A Tetra Pak sugere que o UHT pode atender a vários nichos de mercado:
- leite UHT enriquecido com vitamina D sintética ou zinco, para os consumidores pós-Covid-19 que "buscam elementos que fortaleçam a imunidade";
- leite UHT com camomila, para quem sofre de insônia ligada à saúde mental;
- produtos de leite UHT saborizados, para quem quer reduzir o consumo de açúcar;
- bebidas enriquecidas com proteína para os "entusiastas da saúde e do condicionamento físico", que apreciam a praticidade do UHT para levar a qualquer lugar (a fundação tem muito a dizer sobre essa moda, como mostra o artigo Proteína em pó faz mal?).
Além de "explorar novos sabores, acrescentar funcionalidade e até incorporar partículas" (a empresa não explica o que quer dizer com "partículas"), a Tetra Pak promete uma "ampla gama de soluções de embalagem", que permitem criar uma embalagem diferenciada que se destaque na prateleira e "engaje" o consumidor.
Cientistas de alimentos também estudam probióticos para laticínios que sobrevivam ao UHT. Um empresário explica que, depois de passar pelo tratamento térmico, "os probióticos mantêm a viabilidade e são estáveis em temperatura ambiente por um período de armazenamento típico de 10 a 12 meses". O suposto duplo benefício é que isso "simplifica o processo de fabricação e melhora a segurança": "do ponto de vista da segurança alimentar, você fica tranquilo sabendo que tudo o que foi adicionado ao produto passou por tratamento térmico".
Leia também
Na Nu&Cru
- Manteiga faz mal? Por que ela é melhor
- Proteína em pó faz mal? O problema do whey
- Lactofermentação: o que é e como fazer
- Weston A. Price: o que os povos tradicionais podem nos ensinar sobre alimentação
- Receitas com leite de verdade: coalhada natural, kefir de leite, cream cheese e golden milk
- Mapa de produtores para comprar leite cru e queijos direto de quem produz
Na Weston A. Price Foundation (em inglês)
- Ultra-Pasteurized Milk
- Facts About Raw Milk
- Microphotography of Raw and Processed Milk
- The Untold Story of Milk, de Ron Schmid
- 15 Things That Milk Pasteurization Kills, da campanha A Campaign for Real Milk
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Este artigo é uma adaptação de "Ultra-Pasteurized Milk: An Ultra-Bad Idea" (publicado no site como "Is Ultra-Pasteurized Milk Bad"), de Merinda Teller, publicado na revista Wise Traditions in Food, Farming and the Healing Arts, da Weston A. Price Foundation, na primavera de 2024. Leia o original em inglês.
As informações têm caráter educativo e não substituem avaliação individual de profissional de saúde habilitado.



