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Bebê na mesa da família: como começar
Das papinhas de gema e fígado aos pedaços que ele mesmo pega: como levar o bebê para a mesa da família e deixar que coma a comida de verdade de todos.

A sabedoria tradicional manda amassar e bater os primeiros alimentos do bebê. Mas, à medida que ele cresce, colocar o bebê na mesa da família e deixá-lo comer a mesma comida de todos é fácil, prático e prazeroso.
O baby-led weaning, ou desmame guiado pelo bebê (o BLW), que Jen Allbritton, mãe de dois meninos e colunista de alimentação infantil da revista da fundação, prefere chamar de "método menos estressante", permite que o bebê mais velho se alimente sozinho, com confiança, de muitos dos pratos que o resto da família está comendo. Além de poupar tempo, deixar o bebê no comando da própria alimentação favorece o desenvolvimento da fala e da coordenação motora e estimula uma atitude mais aberta diante da comida de verdade.
Este artigo, adaptado do texto que ela publicou na revista da Weston A. Price Foundation, mostra como fazer essa transição. Então, chame o bebê para a mesa e bom apetite!
Os primeiros alimentos do bebê nas culturas tradicionais
Os povos que ainda vivem do jeito tradicional oferecem aos bebês em fase de desmame alimentos de verdade, com um preparo especial para que fiquem macios e fáceis de digerir. A autora Cynthia Lair reúne alguns exemplos de primeiros alimentos tradicionais no livro Feeding the Whole Family:
No mundo todo, os bebês começam a comer sólidos com uma grande variedade de alimentos. Na Oceania, os bebês recebem peixe, larvas e fígado pré-mastigados. Os polinésios preferem uma espécie de pudim de fruta-pão com creme de coco. Os bebês inuítes começam com algas e gordura de foca, enquanto os profissionais de saúde japoneses recomendam um mingau ralo de arroz, que vai engrossando com o tempo e ganha cobertura de peixe seco, atum, tofu e abóbora amassada.
Na América do Norte, os alimentos tradicionais para bebês incluíam um "leite" feito de tutano, fígado (muitas vezes pré-mastigado), gemas cozidas moles e tubérculos bem amassados, além do leite materno ou de uma fórmula caseira.
A pré-mastigação da comida, geralmente carne, amolece o alimento e acrescenta enzimas da saliva que ajudam na digestão. Amassar também torna a comida mais digerível, garante que o bebê coma o suficiente e, o mais importante, protege contra engasgos.
O conselho de Adelle Davis
A pioneira da nutrição Adelle Davis contou, no livro Let's Have Healthy Children, lançado em 1951, como alimentava os próprios filhos. Assim que conseguiam ficar sentados com conforto, eles iam para o cadeirão, perto da mesa de jantar, durante as refeições. Participavam assim da vida social da família e, como as crianças aprendem por imitação, observavam como um dia seria esperado que comessem.
Depois que nasciam os dentes, que ela considerava o sinal de que o bebê estava pronto, física e emocionalmente, para os sólidos, Davis passava a oferecer pedacinhos dos alimentos nutritivos preparados para a família, colocados na bandeja do cadeirão para que comessem com as mãos. Os sólidos entravam aos poucos, e nenhum dos dois bebês fazia refeições completas antes dos oito ou nove meses. Nada era comprado ou preparado especialmente para eles, e nenhum dos dois comeu cereal infantil ou papinha enlatada.
Quando começar: papinhas a partir dos 4 a 6 meses
É natural ficar nervoso na hora de oferecer comida sólida ao bebê, mas isso não precisa ser complicado nem virar um fardo na cozinha. Os princípios da fundação para essa fase estão no artigo Nourishing a Growing Baby e, aqui no blog, em Primeiros alimentos do bebê: o que oferecer.
A partir dos quatro meses, e com certeza até os seis, os purês já podem ser introduzidos. Para a autora, as escolhas superiores para as necessidades nutricionais do bebê são:
- carnes batidas com caldo de ossos;
- gemas cozidas moles, com um pouquinho de fígado ralado e sal;
- musse de fígado, como o nosso patê de fígado;
- banana bem madura amassada com iogurte integral.
O Guia da Introdução Alimentar Ancestral da Nu&Cru organiza esses alimentos fase por fase. Mas esses primeiros meses passam rápido, e logo chega a hora de incluir o bebê na mesa da família e deixá-lo comer exatamente o que os outros estão comendo.
Com que idade o bebê come sozinho?
Depende da maturidade dele e da sua tolerância à bagunça! Alguns bebês conseguem se alimentar sozinhos já aos oito meses; outros, só com um ano.
Para as mães que acham menos estressante dar comida de colher do que limpar um bebê e um cadeirão lambuzados, há um bom meio-termo: dar a comida amassada antes de a família se sentar, ou no começo da refeição, e depois deixar o bebê se distrair com alguns pedaços de legumes macios ou com um osso de frango para roer enquanto todos jantam.
A única condição desse jeito de alimentar o bebê é que a família inteira esteja comendo comida de verdade, nutritiva. Ou seja, oferecer o melhor ao bebê significa estudar os alimentos tradicionais e reservar tempo para prepará-los na própria cozinha, para todos.
BLW passo a passo: da papinha à comida da mesa
O bebê está pronto para a comida da mesa? O jeito mais simples de saber é deixar que ele mostre. Existem sinais e fases de prontidão, mas o melhor termômetro é o interesse dele.
Os dentes são, sim, um sinal, mas algumas crianças só ganham dentes mais tarde, e algumas com dentes ainda não estão prontas para comer sozinhas. As gengivas dão conta de morder, chupar e mastigar. Explorar é natural para os bebês e faz parte do aprendizado, e é assim que devem ser encarados os primeiros encontros com a comida. Esta é a progressão básica:
- Inclua o bebê. O primeiro passo é trazê-lo para as refeições desde cedo: segure-o no colo, dê a ele uma colherzinha e converse sobre os alimentos da refeição. Por pura curiosidade, um dia ele vai agarrar a comida e querer fazer o que o resto da família faz. Quando chegar a hora, sente-o no cadeirão, junto à mesa. E, para melhorar ainda mais a experiência, peça ao pai ou a um irmão mais velho que cuide do bebê, para que a mãe possa simplesmente sentar e aproveitar a refeição e a companhia.
- Bata os primeiros alimentos. Até os oito a dez meses, a comida do bebê deve ser batida e dada de colher. Amassar e bater facilita a digestão e garante que ele coma o suficiente. É a fase em que o bebê descobre como mastigar, sugar e engolir, habilidades que se desenvolvem sozinhas. Com o tempo, acrescente alimentos novos, com textura mais pedaçuda. A comida da mesa batida também serve nessa fase: ensopado de legumes picadinho, sopas, batata-doce com bastante gordura, musse ou patê de fígado. Um pequeno processador ou um passa-legumes facilita o trabalho.
- Deixe o bebê pegar e escolher. Por volta dos oito meses (às vezes antes, às vezes depois), a capacidade de pegar a comida com a mãozinha gorducha amadurece, e logo uma das tentativas dá certo. Deixar que ele faça o que quiser com a comida (menos jogá-la longe, na opinião da autora) estimula o interesse por sabores, texturas e cheiros diferentes, uma mudança e tanto em relação às papinhas prontas, em que tudo vem batido junto. Ajude se ele mostrar frustração e pedir ajuda, mas não force.
Comidas para comer com a mão
Quando o bebê já consegue ficar sentado, mastigar sem engasgar e levar a comida à boca com eficiência, o princípio do desmame guiado pelo bebê decola de vez. Comer vira diversão: ele escolhe o que tem gosto bom, o que é bom de pegar e o que o nutre naquele momento.
Agora você pode oferecer pedaços mais compridos e grossos, que o bebê consegue segurar e que ficam para fora do punho fechado, como:
- palitos de legumes cozidos no vapor, refogados ou assados: cenoura, batata-doce, abóbora, vagem, pastinaca;
- palitos de fruta: mamão, banana, abacaxi (com casca, para ajudar a segurar);
- fatias grossas de abacate;
- palitos de queijo;
- fatias finas de carne (as cozidas costumam ser mais macias), ou iscas de peixe ou de carne;
- ossos de coxa de frango e costeletas de cordeiro ou de porco, que ajudam especialmente no desconforto da dentição.
Com o tempo, o bebê fica mais hábil e acerta o alvo com mais precisão. Em boa hora, porque a necessidade de calorias e nutrientes está crescendo. O leite materno ou a fórmula caseira (as receitas da fundação estão em Homemade Baby Formula) ainda respondem pela maior parte das calorias e dos nutrientes.
Leite e comida: encontrando o equilíbrio
Seja flexível para encontrar o equilíbrio entre o leite e a comida. Cada bebê é diferente. Se ele fica irritado sem mamar antes, dê o leite primeiro. Se fica feliz pegando a comida por um tempo, come uma boa quantidade e ainda mama bem, ótimo!
Assim como no aumento gradual da comida, o bebê vai dando sinais que ajudam a acertar esse equilíbrio. Aos poucos, os alimentos complementares começam a chegar à barriguinha e a contar cada vez mais nas calorias do dia. Nesse método, você decide o que servir, e o bebê decide quanto e em que ritmo comer.
Com um ano, um lugar de verdade à mesa
Perto de completar um ano (de novo, às vezes antes, às vezes depois), o bebê já consegue pegar com a colher, mergulhar a comida e talvez até queira usar sozinho um potinho e uma colher. Use o bom senso para escolher os alimentos, seguindo os princípios básicos da fundação.
Se há alergias na família, tenha mais cautela ao introduzir alimentos novos. E, para todos os bebês, grãos e clara de ovo devem esperar até pelo menos um ano. Fora isso, inclua o bebê nas refeições da família e ofereça o que vocês estão comendo, com exceção de alguns riscos de engasgo que continuam valendo para crianças maiores: castanhas inteiras, uvas inteiras, tomates-cereja inteiros e peixes com espinhas.
Alimentos nutritivos para ter sempre à mão
- anchovas secas;
- pastas de castanhas, de preferência feitas com castanhas deixadas de molho e secas, ou a nossa pasta de amendoim;
- queijo da melhor qualidade, cru se possível;
- embutidos curados, como o salame;
- carnes, aves e peixes cozidos, e rodelas de linguiça;
- frutas maduras, especialmente frutas vermelhas (mirtilos congelados são uma delícia e às vezes aliviam a gengiva dolorida) e banana (as crianças adoram segurar);
- frutas secas e desidratadas, especialmente no inverno, quando há menos frutas frescas;
- biscoitos de linhaça, de castanhas ou de sementes, preparados da forma correta;
- pedaços de tâmara;
- folhas de nori, para enrolar sobras rapidinho;
- musse de fígado;
- iogurte integral, de preferência caseiro;
- chucrute de cenoura e repolho, ou outra combinação de legumes fermentados de que a família goste;
- apple butter fermentada, uma pasta de maçã cozida.
Ter esses alimentos à mão facilita a alimentação do bebê e da família inteira.
A experiência da autora com o filho caçula
Com o caçula, Chase, esse jeito menos estressante de alimentar o bebê aconteceu sem querer. A autora conta que tinha menos tempo e menos vontade de preparar papinhas separadas, e que lhe pareceu mais intuitivo dar a ele o que a família comia do que tinha sido com o primeiro filho.
Por volta dos seis meses, Chase aceitou muito bem a comida de colher. Os primeiros alimentos foram gema cozida mole com fígado ralado e sal marinho. Banana frita na gordura do bacon e misturada ao iogurte (parente das nossas bananas fritas na gordura) e musse de fígado eram outros favoritos.
Em vez dos clássicos cubinhos de papinha congelada, a preparação especial se resumia a duas tarefas:
- Musse de fígado, feita em grandes quantidades e congelada em potinhos de vidro com tampa.
- Fígado ralado, congelado em pequenas porções sobre uma assadeira e depois transferido para um pote de vidro, de onde era fácil tirar uma porção e misturar à gema morna.
O resto da comida de Chase era o que já havia na despensa ou na geladeira, ou uma porção amassada da refeição da família.
Dos purês à comida da família
Alimentos mais sólidos para comer com a mão entraram cerca de cinco ou seis semanas depois, e a animação dele era divertida de ver. Ajudou o fato de ter um irmão mais velho para imitar. Pouco depois, as refeições de Chase ficaram muito parecidas com as de hoje, aos vinte meses, só que com menos participação da mãe.
Ela coloca três ou quatro opções novas na bandeja do cadeirão para ver o que ele quer. O leite cru vai num copo de transição (às vezes reforçado com creme de leite cru, probióticos infantis, acerola em pó ou um ou dois óleos), e ele bebe quando quer. A maior parte da comida vem da mesa da família:
- pedacinhos de um ensopado feito com caldo de ossos, legumes e carne de animais criados a pasto;
- pedaços de um bolinho de fubá;
- um bocado de frango com acelga gratinados no forno;
- pedaços de uma fritada de bacon com tomate, como a nossa fritada de carne moída.
Se a família está comendo salada, ela oferece um pouco do que está nas tigelas: pedaços de frango, tomates-cereja cortados ao meio e palitos de abacate com sal. Se a comida pode ser comida de colher, vai para um potinho e ele se vira. E não tenha medo de ervas e temperos: os gostos da criança podem surpreender.
Parte do que vai para a bandeja é comida, parte não. Há muitos sorrisos, muita escolha entre as opções e muitos olhares para o resto da família. O que ele devora ganha repeteco. O que sobra na bandeja é comido por outra pessoa da família, volta para a geladeira até outra refeição ou vira comida para as galinhas (sim, a família cria galinhas no quintal). Às vezes o alarme dispara quando ele come pouco, mas a autora dá um passo atrás e lembra que ele vai comer o que precisa.
Relaxe: os bebês comem comida tradicional há milênios
Ser mãe ou pai pela primeira vez pode provocar um turbilhão de preocupações: escolher os melhores primeiros alimentos, as melhores fraldas, a música ideal para estimular o cérebro. Muitas perguntas que a autora recebe giram em torno de encontrar o "cardápio perfeito" para o bebê. Ela gostaria de poder transmitir por telepatia um pouco da calma que só a experiência traz. Mas são esses desafios que nos formam, e nada se compara ao aprendizado do dia a dia criando os próprios filhos.
O que ela pode dizer é que os bebês comem alimentos tradicionais há milênios, então relaxe. Reserve o tempo necessário para conseguir e preparar os alimentos mais nutritivos e de melhor qualidade para toda a família e inclua o bebê quando chegar a hora. Aproveite o bebê, sorria muito e confie no seu instinto. A energia que você transmite, de propósito ou não, diz muito, e manter a calma torna tudo mais prazeroso para você e para ele.
Liberdade de escolha não é desculpa para frescura
Uma ressalva: não deixe que esse método de autosseleção vire desculpa para a frescura na hora de comer. A fundação trata do tema em Taking the "Icky" Out of Picky Eaters, adaptado aqui no blog em Seletividade alimentar: como lidar em casa. Para a autora, ninguém deve virar cozinheiro de pedidos para cada membro da família. Felizmente, esse desmame guiado pelo bebê, começado cedo, reduz as chances de a criança virar seletiva à medida que cresce e o paladar amadurece.
Mantenha a neutralidade
Como as enfermeiras do experimento da doutora Clara Davis (veja o quadro mais abaixo), mantenha-se emocionalmente neutro. Passe a mensagem "come, não come, para mim tanto faz". Se você, adulto, não gosta de ovas de peixe, evite as caretas de nojo. Se o bebê simplesmente não quer pegar e provar alguma coisa, não enfie a comida na boca dele porque "faz bem".
Sorria, olhe para ele como olha para os outros à mesa, comente pouco ou nada e não faça a "dança da comida" quando ele comer de bom grado o primeiro floquinho de alga. E, acima de tudo, nunca demonstre irritação. Deixe que ele descubra sozinho. Interesse demais, em qualquer direção, pode desestimular a vontade de experimentar e de ser aventureiro com a comida. Assim como andar e falar, isso vai acontecer no tempo do seu bebê.
Primeiro a família, depois as adaptações
Coloque as coisas na ordem certa: prepare com carinho cada refeição para a família toda e depois adapte os ingredientes para o bebê. Comece a abandonar a ideia de que o bebê precisa de comida de bebê depois dos primeiros meses e simplesmente o inclua na mesa da família. É mais fácil, toma menos tempo e, a longo prazo, é melhor para o bebê. E, mesmo que a bagunça peça um pouco mais de atenção, deixe a câmera por perto: ela rende lembranças lindas.
Quadro: ensine o bebê a se comunicar por sinais
Ensinar ao bebê uma linguagem de sinais traz muitos benefícios, e o melhor deles é a redução da frustração, especialmente na hora de comer. Os dois filhos da autora aprenderam cedo os sinais básicos, como "comida" ou "comer", "leite", "acabou" (um dos mais importantes), "mais" e "por favor" (não é necessário, mas ela gosta de boas maneiras!). Depois vieram sinais para mamãe, papai, banana, biscoito, vários animais (macaco é especialmente divertido), sapatos e outros.
As crianças se divertem, e alguns especialistas acreditam que aprender sinais cedo melhora o vocabulário mais tarde. O caçula, aos vinte meses, usa os sinais de comida em outras situações, como para avisar à mãe que ela precisa "acabar" de ler um livro porque ele quer que ela desça ao chão para brincar. O mais velho, que hoje tem um vocabulário amplo, ainda inclui de vez em quando um sinal conhecido quando fala, porque lhe vem naturalmente. A autora acha isso útil para lembretes discretos: em vez de perguntar "o que é que se diz?", ela faz o sinal de "obrigado".
Há muito material sobre o assunto. A família da autora usa livros e vídeos que ensinam a língua de sinais americana, e ela sugere conferir o acervo da biblioteca do bairro. No Brasil, a língua de sinais oficial é a Libras.
Quadro: o experimento do bufê de Clara Davis
Nos anos 1920, a pediatra Clara Davis conduziu um experimento que ilustra dois pontos importantes. Primeiro, que alimentos sagrados como ovos, fígado e ovas de peixe são ideais para o bebê se desenvolver bem. Segundo, que os bebês têm uma intuição sobre as próprias necessidades nutricionais.
O experimento aconteceu numa época em que as recomendações alimentares para bebês ficavam cada vez mais rígidas e pouco apetitosas. Os bebês claramente não gostavam dos novos padrões "mais saudáveis", a julgar pela resistência que muitos pais enfrentavam. Davis acreditava que esses padrões não correspondiam ao que os bebês precisavam, e o experimento confirmou suas suspeitas.
Ela acompanhou quinze órfãos de sete a nove meses, que podiam escolher livremente o que e quanto comer de um bufê de alimentos de verdade, com pouco preparo, sem misturas e sem ingredientes refinados ou industrializados. Eram 33 opções, entre elas leite integral (fresco e azedo), ovos cozidos, carnes, peixes e ovas, cereais cozidos, legumes e frutas crus e cozidos. A comida não levava sal, mas uma tigela de sal ficava à disposição dos bebês. As enfermeiras não faziam comentários, não mandavam "aviõezinhos" de colher para pousar na boca dos bebês e não davam bronca quando um bebê recusava um alimento novo ou comia "demais" de outro.
O que os bebês escolheram
Sem alimentos refinados para estragar o paladar, essas crianças demonstraram uma sabedoria inata para escolher os alimentos de que precisavam para ter uma saúde vibrante, monitorada por exames extensos. As escolhas nem sempre eram bonitas de ver. Um dia, uma criança comeu sete ovos; outra preferiu um punhado de sal. Algumas comiam mais frutas; outras iam direto para as carnes. Uma criança com estrutura óssea frágil escolheu, por conta própria, óleo de fígado de bacalhau 113 vezes.
As refeições de cada dia não traziam um "equilíbrio" perfeito, mas, no longo prazo, o perfil nutricional correspondia exatamente ao que cada um precisava. Não por acaso, nenhuma das crianças escolheu uma dieta dominada por grãos e leite. Davis resumiu suas observações sobre a autosseleção da dieta em um artigo de 1939 no Canadian Medical Association Journal.
Por que isso tranquiliza os pais
Embora pequeno, o estudo de Davis dá bons motivos para considerar o desmame guiado pelo bebê. Montar 33 opções a cada refeição é exagero, mas oferecer ao bebê uma variedade razoável de alimentos tradicionais em cada refeição é possível. Com várias opções e a chance de decidir sozinho, o bebê escolhe o que é melhor para o seu crescimento naquele momento.
Para a autora, o experimento dá liberdade para relaxar: os bebês sabem. Um ponto-chave é que Davis oferecia alimentos saudáveis e deixava as crianças comerem quanto quisessem. O resultado seria diferente se houvesse alimentos industrializados, açucarados e cheios de gorduras artificiais? Talvez, mas não sabemos, e dificilmente saberemos, porque um estudo assim talvez não passasse pelos critérios de pesquisa de hoje.
Num dia, o bebê toma um copo inteiro de leite cru; no outro, nem tanto. Numa semana, come dois ovos fritos por dia; na seguinte, deixa os ovos de lado. Não se assuste se as escolhas parecerem irregulares às vezes: tudo se equilibra no fim. E, como a comida vem da mesa da família, nada se perde.
Vantagens e desvantagens do BLW
As vantagens desse método menos estressante são muitas. Segundo a autora, ele:
- dá ao bebê a chance de conhecer texturas, cheiros e formatos diferentes;
- estimula a confiança e uma atitude aventureira diante da comida;
- torna a refeição mais agradável para o bebê e menos frustrante para os pais;
- desenvolve a mastigação e a musculatura, importantes para a fala, a digestão e a segurança contra engasgos;
- deixa o bebê mais no controle do que gosta e do que não gosta, e permite que ele exercite o instinto sobre as próprias necessidades nutricionais;
- coloca o apetite nas mãos do bebê, já que ninguém precisa convencer ou insistir;
- melhora a destreza e a coordenação entre olhos e mãos, porque ele pega e manuseia mais a comida;
- integra o bebê à mesa da família, atendendo à necessidade de imitar e aprender pelo exemplo;
- facilita as refeições fora de casa, porque o bebê já está acostumado à comida da mesa e a uma grande variedade (com pouco mais de um ano, o caçula da autora comeu sushi sem problema nenhum);
- desestimula a seletividade nos primeiros anos, porque a comida da mesa já é a norma e quase não houve brigas na hora de comer.
A única desvantagem é a bagunça, principalmente quando a família come algo pastoso, como mingau. Por isso, tenha sempre à mão na cozinha uns paninhos finos e, quando o tempo permitir, dê de comer ao bebê no quintal, só de fralda ou peladinho: ele fica uma graça e é bem mais fácil de limpar!
Leia também
Na Nu&Cru
- Primeiros alimentos do bebê: o que oferecer
- Desmame: quando e como começar
- Café da manhã para crianças: ideias nutritivas
- Receitas para a mesa da família: caldo de frango e patê de fígado
Na Weston A. Price Foundation (em inglês)
- Nourishing a Growing Baby
- Bringing Up Baby: When to Wean... and How
- Sacred Foods for Exceptionally Healthy Babies... and Parents, Too!
- Princípios Atemporais de Dietas Tradicionais Saudáveis (em português)
Referências
- Davis, Adelle. Let's Have Healthy Children. New American Library (Signet), 1972, p. 217.
- Davis, Adelle. Let's Have Healthy Children. New American Library (Signet), 1972, p. 218-219.
Este artigo é uma adaptação de "Including Baby at the Family Table", de Jen Allbritton, publicado na revista Wise Traditions in Food, Farming and the Healing Arts, da Weston A. Price Foundation, no inverno de 2009. Leia o original em inglês.
As informações têm caráter educativo e não substituem avaliação individual de profissional de saúde habilitado.



